quinta-feira, 29 de novembro de 2012

CARTUNICÍDIO


Uma constante na tira editorial é o desprendimento com a estética. Prioriza-se transmitir uma mensagem rápida e direta e não criar um desenho virtuoso com textos subjetivos; executar algo rápido e de fácil assimilação, remédio em três ou quatro quadros. Um dos motivos para isso provavelmente seja o limite de espaço –reproduzir um desenho elaborado no espaço mínimo dado às tiras em jornais, revistas pode ter um resultado final visualmente desastroso–, correndo o risco da arte esmerado do cartunista virar um imenso (pequeno) borrão de tinta preta.

A tira editorial normalmente tende a buscar um senso comum, de fácil entendimento, como já dito antes, um “remédio” para que o leitor possa passar os olhos rapidamente, se entreter e ir cuidar da vida. Uma abordagem mais artística, mais abstrata tende a colidir com esse tratamento já incutido na mentalidade do leitor. Outro fator é a ‘velocidade de produção’, pois prazos editorias normalmente são curtos e impiedosos. O cartunista passa a não pensar sobre o que pode fazer, e sim no que consegue criar dentro do prazo estipulado.

Bem, isso é uma introdução p’ra comentar o trabalho a seguir, que visivelmente não tem nada de editorial. Conversando com um amigo comentei ter desenhado uma tira “autobiográfica”, ele imediatamente rebateu: - Mas todas suas tiras são autobiográficas. Noutra ocasião ouvi a seguinte: - Acho interessante o modo como você se diverte falando de si mesmo. Parece um jeito educado de dizer que a pessoa é egocêntrica, mas entendi o que ele quis dizer. Na real, como não tenho nenhum comprometimento formal com meu trabalho, me interessa mais provocar o leitor do que elucidar um tema em si, dar o meu ponto de vista sobre qualquer tema e esperar o ponto de vista de cada um, sem parecer linear ou, sei lá, universal. Algo que me diverte também é distribuir elementos pelo desenho e ver o que cada pessoa vai achar primeiro, esse tipo de coisa faz perceber um padrão de comportamento em cada leitor, enfim. 
Há algum tempo tenho sujado mais meu traço, carregando (até demais) nos elementos cênicos dos desenhos. O motivo principal é uma busca pessoal, poder trabalhar com menos cores e mais texturas. O tipo de mensagem que tento transmitir nesses últimos desenhos também pede esse estilo, essa estética “pesada”. Aí começa a parte ruim, quando pensei e produzi a tira que quase me fez cometer cartunicídio.


Se arrastaram três semanas (sem exagero) na produção, muita dor na coluna, ombro, cotovelo e pulso. Vi essa experiência (nada agradável) como exteriorização de um problema pessoal, a frustração de se sentir “ponte”. O tema acabou dominando todo o processo, uma sucessão de dificuldades que transformou cada linha em um completo martírio. O fator ‘experimentação’ foi válido até, compreender que uma ideia tem sim limite, que é o limite físico do executor. Foi aí também quando testei outros materiais, trocando as (canetas) Micron pelas uni PIN (infeliz ideia). Dado o desabafo, fica então o trabalho maldito...